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sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Estudo de Pesquisadores de Ribeirão Preto e de São Carlos busca potencializar ação contra tumores de composto extraído de planta amazônica


Imagem meramente ilustrativa

Tópico 01536

Pesquisadores de Ribeirão Preto e de São Carlos desenvolveram formas modificadas de substâncias alcaloides produzidas pela planta amazônica unha-de-gato (Uncaria guianensis). Em sua versão natural, esses compostos ficaram conhecidos pela capacidade de combater tumores e inflamações, além de agir na modulação do sistema imune. O objetivo do grupo é obter uma estrutura química com ação terapêutica potencializada.

O trabalho teve apoio da FAPESP e foi publicado na Scientific Reports por grupos da Universidade de Ribeirão Preto (Unaerp) e da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

Os alcaloides são compostos orgânicos produzidos por plantas ou microrganismos e usados há muito tempo na medicina. Um exemplo é a morfina, extraída da flor da papoula (Papaver somniferum).

Estudos recentes mostram que pequenas modificações na estrutura química de determinados alcaloides potencializam o efeito terapêutico desses compostos. A fluorvimblastina, por exemplo, é o resultado da adição de flúor à estrutura química da vimblastina, um alcaloide natural produzido pela vinca (Catharanthus roseus). Pesquisadores dos Estados Unidos mostraram que a atividade antitumoral da fluorvimblastina é 30 vezes maior do que a do composto natural.

Quando comparamos a estrutura da vimblastina e a dos alcaloides da U. guianensis, vimos que eles têm vias biossintéticas muito semelhantes. Uma das modificações que fizemos, então, foi similar: substituímos um hidrogênio do anel aromático [pequena parte da estrutura da molécula] por um átomo de flúor”, explicou Adriana Aparecida Lopes, professora da Unidade de Biotecnologia da Unaerp e primeira autora do artigo.

O resultado foi um novo alcaloide, nomeado 6-fluoro-isomitrafilina, que tem três hidrogênios aromáticos e um flúor (em vez de quatro hidrogênios aromáticos do alcaloide natural). Outro análogo produzido teve a introdução de um grupo metila no lugar de um hidrogênio aromático e recebeu o nome 7-metil-isomitrafilina.

A pesquisa teve auxílio da FAPESP nas modalidades Apoio a Jovens Pesquisadores e São Paulo Researchers in International Collaboration (SPRINT).

A continuação do projeto acaba de ser selecionada em uma chamada conjunta da FAPESP, do Conselho Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (Confap), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e do European Research Council, e será realizada em colaboração com Sarah O’Connor, diretora do Instituto Max Planck de Ecologia Química, na Alemanha.


Plantas de laboratório

As modificações nos alcaloides foram feitas usando o próprio metabolismo da unha-de-gato. Plantas jovens (plântulas), de até 15 centímetros de altura, foram cultivadas no laboratório, em recipientes com água e nutrientes. Nesse meio líquido, foram adicionados os chamados precursores, que são intermediários-chave para a síntese de alcaloides naturais com pequenas modificações na sua estrutura.

Esse protocolo se chama biossíntese dirigida pelo precursor. Quem está fazendo a síntese é a própria planta. Eu dou um intermediário-chave análogo [precursor] para ela, que é captado e inserido em sua rota metabólica, formando um novo alcaloide. É uma abordagem de ‘química verde’, totalmente livre de solventes, reagentes e que faz uso de um sistema in vitro de plântulas”, explicou a pesquisadora.

As plantas foram cultivadas por 30 dias e seu extrato submetido a diferentes tipos de análise por cromatografia líquida associada à espectrometria de massa, a fim de identificar as substâncias presentes. A partir dessa caracterização, o material foi submetido a processos químicos para isolar os compostos análogos presentes no extrato.

Os dois novos alcaloides produzidos, modificados com flúor e metila, foram submetidos ainda a ressonância magnética nuclear, para confirmação de suas estruturas químicas.

Esse procedimento permitiu a obtenção de aproximadamente um a dois miligramas do novo alcaloide fluorado, que deve ser o foco dos próximos estudos do grupo. O objetivo é aumentar essa produção e, para isso, será preciso silenciar na planta a produção dos alcaloides naturais. A ideia é que a unha-de-gato produza, no laboratório, apenas a versão fluorada.

Para isso, uma enzima presente no metabolismo da unha-de-gato chamada TDC, que transforma o aminoácido triptofano em triptamina, deve ser silenciada. Dessa forma, a planta vai deixar de ter triptamina natural e produzirá apenas a versão modificada”, explicou Lopes.

A ideia é aplicar a biossíntese dirigida pelo precursor em U. guianensis e obter novos compostos com potenciais efeitos terapêuticos, mais eficazes do que aqueles produzidos naturalmente pela planta.


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sexta-feira, 1 de novembro de 2019

A Tabela Periódica completa 150 anos de criação em 2019


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Tópico 01535

A Tabela Periódica (TP), mais importante referência sobre os elementos químicos, completa 150 anos de criação em 2019. Em comemoração ao aniversário, a Comissão Técnica de Divulgação do CRQ-IV desenvolveu esta página especial da seção QuímicaViva, que reunirá artigos escritos por colaboradores sobre alguns dos 118 elementos componentes da TP.

Criada pelo russo Dmitri Ivanovich Mendeleev (1834-1907) em 1869, a Tabela Periódica foi elaborada com os 63 elementos conhecidos até então e que, inicialmente, foram organizados por ordem crescente de suas massas atômicas. A seguir, ele os dispôs em colunas horizontais e verticais, respeitando as características e semelhanças dos elementos.

A tabela se chama “periódica” porque mostra a repetição de propriedades físicas e químicas que alguns elementos têm em comum. Espaços vazios foram reservados para a descoberta de novos elementos, o que permitiu a ampliação do número de integrantes para os atuais 118 ao longo do tempo.


Ano Internacional

A 72ª sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas, realizada em dezembro de 2017, proclamou 2019 como o Ano Internacional da Tabela Periódica dos Elementos Químicos. A celebração envolve a Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), sociedades científicas, institutos de educação e pesquisa, organizações não governamentais e setor privado na promoção de eventos que ressaltam a importância da Tabela Periódica e suas aplicações, como o 47º Congresso Mundial de Química, promovido em Paris (França) de 5 a 12 de julho de 2019.


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quarta-feira, 30 de outubro de 2019

Nanopartículas são modificadas para combater câncer, vírus e bactérias de modo seletivo


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Tópico 1534

Um grupo do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM) liderado por Mateus Borba Cardoso vem trabalhando, com apoio da FAPESP, no aperfeiçoamento de nanopartículas para serem usadas no tratamento de tumores, infecções e inflamações. A proposta é levar fármacos em doses ideais diretamente às células doentes, evitando danos desnecessários ao organismo.

Para que esse objetivo se torne viável, porém, dois obstáculos precisam ser superados. O primeiro é evitar que proteínas grudem na superfície das nanopartículas quando elas entram em contato com o sangue do paciente, formando estruturas conhecidas como coroas. Como explicou Cardoso, o risco nesse caso seria a coroa de proteínas de uma partícula se unir à de outras, criando um efeito em rede que reduz a capacidade de ação das nanopartículas e que pode levar ao entupimento de vasos. O segundo desafio é garantir a estabilidade das nanoestruturas em fluidos como o plasma sanguíneo.

Novas estratégias para solucionar esses problemas foram descritas pelo grupo do CNPEM em artigos publicados recentemente nos periódicos ACS Applied Materials Interfaces e Journal of Colloid and Interface Science – sendo que este último dedicou um destaque de capa ao trabalho.

Os dois artigos descrevem a ação de partículas com funcionalizações duplas, ou seja, que tiveram a superfície modificada para, ao mesmo tempo, evitar a formação da coroa de proteínas e garantir a estabilidade coloidal no fluído sanguíneo.

Agora que sabemos sobre a possibilidade de trabalhar com estruturas duplamente funcionalizadas, conseguimos identificar a proporção entre os diferentes grupos químicos que favorecem a estabilidade das nanopartículas e evitam a toxicidade e a formação da coroa de proteínas”, disse Cardoso à Agência FAPESP.

No trabalho intitulado "Dual Functionalization of Nanoparticles for Generating Corona-Free and Noncytotoxic Silica Nanoparticles", publicado pelo ACS Applied Materials Interfaces, o grupo descreve a busca pela proporção ideal de dois grupos químicos usados na dupla funcionalização: o zwitteriônico e o amino.

 “O grupo zwitteriônico é formado por estruturas que apresentam cargas positivas e negativas que se neutralizam [ficando, consequentemente, com uma carga quase neutra]. São essas estruturas que impedem a formação de coroa e que mantém a estabilidade coloidal do sistema. Já o grupo amino serve, potencialmente, para ancorar anticorpos que direcionam as partículas às células de interesse, mas é sabido que ele induz a formação de coroa, desestabiliza as partículas e tem toxicidade considerável. Buscamos, então, identificar a proporção ideal entre esses dois componentes”, contou Cardoso.

O experimento foi realizado inicialmente em células de mamífero (fibroplastos de camundongos). Em seguida, foram feitos ensaios de hemólise com sangue humano fornecido pelo Hemocentro da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (FCM-Unicamp).

Nesse caso, o objetivo foi avaliar se as partículas induziam o rompimento dos glóbulos vermelhos do sangue, o que as tornaria contraindicadas para uso terapêutico”, explicou o pesquisador.

Os resultados mostraram que nanopartículas contendo uma fração significativa de zwiteriônicos na superfície não induzem a hemólise e são potencialmente seguras para administração intravenosa”, acrescentou.

O segundo estudo, Shielding and stealth effects of zwitterion moieties in double-functionalized silica nanoparticles, divulgado no Journal of Colloid and Interface Science, descreve o uso de estruturas zwiteriônicas na retenção de compostos formadores de coroa.

Essa camada zwiteriônica forma uma espécie de membrana de água ao redor da nanopartícula, fazendo com que ela não seja identificada pelos mecanismos de defesa do organismo”, explicou Cardoso.

Segundo o pesquisador, algumas das proteínas que tendem a grudar na superfície das partículas quando elas entram em contato com o sangue atuam como sinalizadoras do sistema imune, atraindo ao local células de defesa, como os macrófagos, que tentam eliminar aquele corpo estranho.

Evitar a formação da coroa de proteínas, portanto, é fundamental para a partícula passar despercebida pelos mecanismos de defesa do organismo. Estamos buscando obter essas partículas ‘invisíveis’. Mas, será que sendo ‘invisíveis’ elas conseguem interagir com alguma estrutura biológica?”, indagou Cardoso.

Para solucionar a dúvida, foram feitos experimentos de funcionalização dupla contendo grupos zwiteriônicos e um outro grupo de atividade biológica – chamado pelos pesquisadores de BAGs (grupos biologicamente ativos, na sigla em inglês).

Testamos as propriedades hemolíticas [risco de causar hemólise], a capacidade de formação de coroa e se as nanopartículas ‘invisíveis’ seriam capazes de interagir com diferentes estruturas biológicas”, explicou Cardoso.

O efeito foi avaliado in vitro em culturas de células de mamíferos, de bactérias da espécie escherichia coli e de vírus zika. Os resultados mostraram que, ao mesmo tempo em que mantém escondidos os compostos formadores de coroa, a membrana de água também não permite que as nanopartículas interajam com células de animais, vírus ou bactérias – bloqueando, portanto, qualquer ação terapêutica.

O próximo passo para tentar solucionar o impasse, segundo Cardoso, será fazer com que os grupos biologicamente ativos saiam dessa camada de hidratação para que possam ser reconhecidos de maneira seletiva.

Tentaremos inserir os BAGs ou outras estruturas com atividade biológica comprovada para fora do domínio dos zwiteriônicos e, para isso, o grupo amino será essencial”, disse.


Avanço da nanomedicina

Pesquisada desde o início da década de 1980, a nanomedicina é baseada na inserção de medicamentos em nanopartículas – elementos capazes de transportar fármacos pela corrente sanguínea –, que podem ser formadas por conjugados de proteínas, estruturas lipídicas sólidas e outras substâncias. A estrutura mais usada pela indústria farmacêutica ainda é a composta por lipossoma, um tipo de membrana muito parecido com as que envolvem as células do corpo humano.

As nanopartículas, em geral, conseguem aumentar o tempo de trânsito de um medicamento no organismo de seis para oito ou até doze horas, dependendo do fármaco e da nanopartícula, o que pode trazer melhores resultados aos tratamentos”, disse Cardoso.

Apesar de não apresentarem toxicidade ao organismo, os lipossomas não são capazes de transportar medicamentos até pontos específicos, causando efeitos colaterais indesejados, como a queda de cabelo no caso dos tratamentos de câncer, por exemplo.

As nanopartículas desenvolvidas pelos pesquisadores do CNPEM são dotadas de estruturas rígidas, diferentes dos lipossomas. Compostas por uma camada nuclear formada principalmente por sílica, elas apresentam uma estratégia diferente, pois abrigam um núcleo revestido com grupos químicos que reagem apenas em locais específicos, passando a atuar de modo seletivo. “É como se fosse uma bola de tênis em que o centro é composto pela sílica e, o tecido que a reveste, pelas funcionalizações”, explicou Cardoso.

O grupo do CNPEM já vinha demonstrando a viabilidade dessa estratégia para o tratamento do câncer, com o transporte de compostos quimioterápicos apenas às células tumorais, evitando a interação com as células sadias. Também se mostrou eficiente na inativação do vírus HIV in vitro.


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segunda-feira, 28 de outubro de 2019

Pesquisa: Teorema explica por que grandezas como o calor e a potência podem flutuar em sistemas microscópicos


Imagem meramente ilustrativa

Tópico 01533

A segunda lei da termodinâmica prevê que a entropia de qualquer sistema isolado sempre aumente, até atingir um máximo. Em outras palavras: sem uma intervenção exterior, a desorganização tende a aumentar. Assim, por melhores que sejam os equipamentos elétricos, eles necessariamente aquecem, pois uma parte da energia que deveria ser convertida em trabalho mecânico é dissipada na forma de calor. E os objetos supostamente inanimados deterioram-se com o tempo, mas não se regeneram espontaneamente.

Porém, essa “verdade” aprendida nas experiências cotidianas não vale necessariamente no mundo microscópico. De modo que os físicos reinterpretaram a segunda lei da termodinâmica, atribuindo-lhe um caráter estatístico. Embora o aumento da entropia prevaleça, existe uma probabilidade não nula de que ela possa diminuir também.

Por exemplo: ao invés de vez de fluir do corpo quente para o frio, como é usual, o calor também pode fluir do corpo frio para o quente em certas situações. Os teoremas de flutuação (FT, da expressão em inglês fluctuation theorems) quantificaram com precisão essa probabilidade. E isso não é desprovido de interesse prático quando se pensa na operação de máquinas em escala nano.

Os FT foram propostos pela primeira vez em artigo publicado em 1993 na revista Physical Review Letters. Seus autores foram os australianos Denis Evans e Gary Morriss e o holandês Ezechiel Cohen, que testaram um desses teoremas usando simulações computacionais. Um artigo publicado agora na mesma revista mostrou que uma consequência dos teoremas de flutuação são as chamadas relações de incerteza termodinâmicas (TURs, da expressão em inglês thermodynamic uncertainty relations), que se relacionam com flutuações dos valores de grandezas termodinâmicas como calor, trabalho e potência. O título do novo artigo é Thermodynamic uncertainty relations from exchange fluctuation theorems.

O primeiro autor, André Timpanaro, é professor na Universidade Federal do ABC (UFABC). E o coordenador do estudo, Gabriel Landi, é professor no Instituto de Física da Universidade de São Paulo (IF-USP). Também participaram dois pesquisadores do Departamento de Física do Trinity College Dublin, da Irlanda: Giacomo Guarnieri e John Goold. O estudo foi apoiado pela FAPESP por meio de dois auxílios regulares à pesquisa concedidos a Landi: “Entropy production in non-equilibrium quantum processes: from foundations to quantum technologies” e “Termodinâmica e tecnologias de informação utilizando sistemas quânticos de variáveis contínuas”.


Relações de incerteza

As origens físicas das relações de incerteza termodinâmicas eram, até o momento, obscuras. Nosso trabalho mostrou que elas podem ser derivadas dos teoremas de flutuação”, disse Landi à Agência FAPESP.

Quando começamos a estudar termodinâmica, nos deparamos com grandezas como calor, trabalho e potência. Sempre atribuímos a essas grandezas valores fixos e nunca cogitamos que elas pudessem flutuar. Mas isso acontece e, no mundo microscópico, tais flutuações são relevantes e poderiam influenciar o eventual funcionamento de uma máquina na escala nano. As relações de incerteza termodinâmicas estabelecem limites inferiores para essas flutuações, relacionando-as com outras grandezas, como o tamanho do sistema, por exemplo”, comentou o pesquisador.

As relações de incerteza termodinâmicas foram descobertas em 2015 pelo grupo de pesquisadores coordenado por Udo Seifert na Universität Stuttgart, na Alemanha. André Cardoso Barato, um ex-aluno do IF-USP, atualmente professor na University of Houston, nos Estados Unidos, participou da descoberta.

Essas relações apresentam uma estrutura matemática semelhante àquela do Princípio de Incerteza, de Heisenberg. Mas não têm nada a ver com física quântica. São puramente termodinâmicas. “A natureza das relações de incerteza termodinâmicas nunca ficou muito clara. Nossa principal contribuição foi mostrar que elas decorrem dos teoremas de flutuação. Acreditamos que esses teoremas descrevam, de forma mais geral, a segunda lei da termodinâmica. E que as relações de incerteza termodinâmicas sejam consequência deles”, disse Landi.

Segundo o pesquisador, essa generalização da segunda lei da termodinâmica “olha” para as grandezas termodinâmicas como entidades que podem flutuar – mas não de maneira arbitrária. Devem obedecer a certas simetrias. “Há vários teoremas de flutuação. Nós encontramos uma classe especial deles e os enfocamos como casos de simetria matemática. Assim, nós transformamos nosso problema em um problema matemático. Nosso principal resultado foi um teorema de teoria de probabilidades”, afirmou.


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quarta-feira, 23 de outubro de 2019

Estudo poderá contribuir para aumentar a taxa de sucesso de gestação em bovinos


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Tópico 01532

Estima-se que entre 20% e 40% das gestações em bovinos sejam perdidas ainda na fase embrionária. As causas da mortalidade ou os fatores que afetam a sobrevivência dos embriões e a continuidade da gestação bovina, porém, ainda não foram totalmente elucidados.

Um estudo feito por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), campus de Pirassununga, em colaboração com colegas das universidades da Flórida, nos Estados Unidos, e da Antuérpia, na Bélgica, indicou que há uma comunicação bioquímica entre o embrião e o útero que pode ser fundamental para garantir o desenvolvimento ideal e o estabelecimento bem-sucedido da gestação em bovinos.

Os resultados do estudo, apoiado pela FAPESP, foram publicados na revista Scientific Reports.

Constatamos que há uma comunicação bioquímica do embrião com o útero muito mais cedo do que se pensava, no sétimo dia de gestação”, disse Mário Binelli, professor da Universidade da Flórida e coordenador do projeto, à Agência FAPESP.

Já nesse estágio de desenvolvimento, o embrião tem a capacidade de alterar a composição bioquímica do ambiente uterino e, provavelmente, essas mudanças beneficiam o desenvolvimento embrionário”, disse Binelli.

De acordo com o pesquisador, na fase embrionária da gestação em bovinos, o embrião transita das tubas (oviduto) para a luz do útero, onde permanece frouxamente preso durante um período de 20 dias até sua implantação e início da formação da placenta (placentação).

Esse período é crítico para a prenhez, uma vez que 40% dos embriões morrem nessa fase. Já após a implantação, a mortalidade embrionária diminui à medida que os embriões passam a receber nutrientes por meio da placenta.

Até então, não tinha sido levantada a hipótese de que o embrião bovino poderia influenciar o útero materno no início da fase pré-implantação, uma vez que, nesse estágio, ele é muito pequeno – tem entre 100 e 200 células – e microscópico, medindo 200 micrômetros, aproximadamente.

A ideia vigente era de que, nessa fase, o embrião só receberia passivamente nutrientes e estímulos do trato reprodutivo materno, sem nenhuma atuação”, disse Binelli.

Outro estudo recente realizado pelo mesmo grupo de pesquisadores mostrou, contudo, que a presença do embrião no sétimo dia de gestação altera a transcrição de alguns genes específicos no trato reprodutivo.

Mas não era sabido se, além de modificar a transcrição gênica, os embriões poderiam liberar sinais capazes de alterar a composição bioquímica do microambiente uterino, de modo a beneficiar o seu desenvolvimento.

A fim de avaliar essa hipótese, os pesquisadores analisaram a concentração de determinadas moléculas – que, estima-se, desempenham um papel importante na gestação em bovinos – no endométrio (mucosa que recobre a face interna do útero) de vacas inseminadas e detectadas gestantes sete dias após o cio e em vacas não inseminadas e, consequentemente, não gestantes.

Os resultados das análises indicaram que a presença do embrião no sétimo dia de gestação aumentou a concentração de moléculas derivadas da via das lipoxigenases (uma família de enzimas envolvidas no metabolismo de eicosanoides) e diminuiu a de aminoácidos, aminas biogênicas, acilcarnitinas e fosfolipídios no endométrio das vacas inseminadas.

Observamos que, possivelmente, há uma série de interações bioquímicas entre o embrião que está se desenvolvendo e o útero que podem ser mais ou menos ideais para atender às necessidades dele e possibilitar que a prenhez seja bem-sucedida”, disse Binelli.

Avanços no conhecimento das condições ideais para o desenvolvimento embrionário durante essa fase inicial, em que um grande número de gestações é perdido, melhorariam a produtividade e a lucratividade da pecuária”, disse.


Embriões in vitro

De acordo com o pesquisador, os resultados do estudo podem contribuir para aprimorar o desenvolvimento de embriões bovinos in vitro, em que o Brasil se destaca como maior produtor mundial.

Apesar de bem-sucedida, a técnica ainda apresenta falhas. “Ainda há muita perda de embriões, provavelmente porque ainda não se consegue mimetizar in vitro, ou seja, fora do trato reprodutivo animal, o que acontece in vivo no útero bovino”, apontou Mariana Sponchiado, primeira autora do artigo, que desenvolveu o estudo durante seu doutorado em andamento na USP e na Universidade da Antuérpia.

Ao avançar na caracterização do ambiente uterino ideal para o desenvolvimento embrionário seria possível mimetizar essas condições in vitro”, afirmou Sponchiado.


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segunda-feira, 21 de outubro de 2019

Pesquisas deverão amparar políticas ambientais


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Tópico 01531

Como diminuir os conflitos entre humanos e mamíferos silvestres nas propriedades rurais? Qual é o papel da floresta na geração de água para a bacia hidrográfica e quais espécies florestais – nativas e cultivadas – podem ser mais interessantes para o ambiente e a economia? Quais são as práticas e os usos socioeconômicos e culturais do interior e do entorno das unidades de conservação?

Essas questões científicas, essenciais para a elaboração de políticas ambientais, devem ser respondidas por quatro projetos de pesquisa apoiados pela FAPESP no âmbito do convênio com o Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF, na sigla em inglês), administrado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

Os projetos foram apresentados durante reunião ocorrida na sede da Fundação no dia 8 de outubro, com a presença das outras partes signatárias do acordo, como Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), Secretaria de Infraestrutura e Meio Ambiente do Estado de São Paulo e Fundação Florestal.

As pesquisas fazem parte do “Componente 1” do projeto “Conexão Mata Atlântica”, que é gerido pelo MCTIC e busca estabelecer o pagamento por serviços ecossistêmicos nos municípios que compõem a bacia hidrográfica do rio Paraíba do Sul, em São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro.

O pagamento por serviços ambientais e ecossistêmicos consiste em gerar renda para produtores rurais que, ao realizarem conservação florestal e preservação de nascentes, por exemplo, contribuem para a polinização, geração de água, lazer e outros serviços providos pelo meio ambiente.

A ideia deste encontro foi integrar os pesquisadores selecionados na primeira chamada com os órgãos ambientais dos três estados que são executores do projeto ‘Conexão Mata Atlântica’, acordo do qual a FAPESP é signatária desde 2016. A contrapartida da FAPESP é o financiamento de pesquisas científicas que auxiliem na geração de uma base de dados de carbono e biodiversidade e com sistemas de monitoramento e avaliação de serviços ecossistêmicos”, disse Bruna Cersózimo Arenque Musa, coordenadora de Programas Científicos da FAPESP e gestora do acordo FAPESP-GEF.

As pesquisas apoiadas visam solucionar problemas enfrentados na gestão de unidades de conservação. “É um momento muito interessante, pois vemos a ciência apoiando a tomada de decisão e as ações de manejo voltadas para a conservação da biodiversidade e a provisão de serviços ecossistêmicos”, disse Jean Paul Metzger, professor do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP) e membro da coordenação do Programa BIOTA-FAPESP.


Projetos

Coordenado por Katia Maria Paschoaletto Micchi de Barros Ferraz, professora da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP, o projeto “Padrões de diversidade biológica e coexistência humano-fauna: componentes que sustentam os serviços ecossistêmicos” estuda formas de diminuir os conflitos entre moradores de propriedades rurais e mamíferos silvestres, muitas vezes vistos como inimigos por atacarem animais domésticos ou plantações.

Com métodos das ciências sociais, principalmente da psicologia, buscamos entender como as pessoas se relacionam com a fauna, o que sentem em relação a ela e o que sabem a respeito. A partir daí, elaboramos estratégias mais eficazes de mudança de comportamento para a conservação dessa fauna, que presta importantes serviços ecossistêmicos”, disse Silvio Marchini, pesquisador da Esalq-USP e membro do projeto, que representou Ferraz no evento.

Uma outra pesquisa apresentada busca compreender o papel da floresta na geração de água para a bacia hidrográfica. Ao mesmo tempo que é inegável o valor da floresta em pé, ainda persistem dúvidas acerca da influência das árvores em crescimento sobre o aporte de água superficial e subterrânea.

Evidências empíricas e resultados de pesquisas sugerem que a transpiração da floresta retira do solo parte da água que fluiria para os rios, produzindo vazão. No entanto, a maior parte desses resultados não foi obtida a partir do uso de sensores que medem diretamente a transpiração das plantas.

Determinar a relação entre taxa de transpiração e crescimento da biomassa, ao nível de indivíduo, para espécies da Mata Atlântica é o objetivo do projeto coordenado por Laura de Simone Borma, pesquisadora do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Algumas pesquisas dão conta de que a floresta pode, em um determinado período do seu crescimento, diminuir o volume de água no rio. Estudos mais recentes, porém, apontam que é possível atingir um nível ótimo de produtividade hídrica com um nível intermediário de cobertura florestal. Atualmente, existem poucos dados que permitam comprovar ou não a existência desse padrão. Com o auxílio de sensores que medem o uso de água de um indivíduo [árvore] ao longo do seu crescimento, associados a medidas de taxas de infiltração da água de chuva, a proposta é investigar o trade-off entre transpiração da mata nativa e infiltração”, disse Borma.

Por sua vez, Maria Teresa Vilela Nogueira Abdo, pesquisadora da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (APTA), busca compreender o crescimento e o rendimento de espécies arbóreas, a fim de entender quais podem ser mais interessantes para o cultivo pelos agricultores da região de Pindamonhangaba e todo o Vale do Paraíba, com a possibilidade de estender, no futuro, para a região de Pindorama, noroeste do estado. O projeto busca integrar a conservação da floresta com a sustentabilidade econômica.

Identificar o valor dado pela população aos serviços ecossistêmicos é o objetivo do Projeto ELOS, coordenado por Wilson Cabral de Sousa Júnior, do Instituto de Tecnologia Aeronáutica (ITA). Em conjunto com lideranças formais e não formais das comunidades, os pesquisadores buscarão construir indicadores socioeconômicos e culturais para serem levados em conta em futuros pagamentos por serviços ecossistêmicos. O escopo foi apresentado por Eliane Simões, professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).




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